Somosmedusas

Cuidado com o que você lê

Tem história que não te deixa virar a página. Te prende, te paralisa, te transforma em pedra diante da palavra. A JáLeu publica livros assim: viscerais, urbanos e hipnóticos. Se prepare para não conseguir desviar o olhar.

Medusa repintada no espírito de Caravaggio sobre fundo preto, de óculos azul-elétrico e batom magenta, dentro de moldura oval

Livros letais sobre o que somos e o que fazemos e clássicos que finalmente você vai conseguir ler. De novos escritores e escritoras para os mais antigos, nossos livros devem ser queimados após serem lidos!

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Primeiro lançamento

Mandíbula

“A morte me contou coisas sobre você que as trevas ficaram eufóricas”

[AUTOR:DIAS]

"Independência ou Morte? Ele sempre escolhe a segunda. Todo 7 de setembro, o Sambódromo do Anhembi deixa de ser passarela de festa para virar vitrine de caça. O asfalto ferve, e ele escolhe a dedo quem vai inaugurar seu abatedouro particular. Seis vítimas. Seis vidas arrastadas para um covil onde o limite humano vai pelo ralo e a morte é o evento principal. Encare as histórias, os segredos sujos e o horror absoluto de cada um deles. "

Avisem quando sair

[VÍTIMA 1]

[Isabel Rurtz]
A garota branca

Trecho: Algo foi introduzido, algo propagou-se dentro de Isabel. Nada podia parar. Não havia um fim adequado a este desejo despertado. Após uma semana inteira de sexo com o namorado, feito criança presenteada com um novo brinquedo, enjoou. Decidiu terminar o romance. Queria novos brinquedos. Dentro de si cresceu uma fome ausente de predador.  Trecho: A voz do homem branco casado de 45 anos não lhe chegou aos ouvidos, é desses que transam calados. Como se o prazer lhes engolisse as palavras. Amputasse a língua. Nem uma palavra sequer. Ela, abastada de satisfação, arrancou a camisa dele. Viu os pelos. Uma barriga não malhada. Um cheiro masculino exalou. O ajudou a tirar as calças. Viu o calção esticado, quase a rasgar o tecido. O fervor do macho. Os lábios de Isabel babaram. As mãos lhe correram à boca. Maravilhada. Garota mimada, vai ter o que merece. Enfim se expressou o homem branco casado de 45 anos. Ela o libertou do calção. Olhou aquele membro abatida de desejo e se entregou a devorar intensamente. Adorou a espessura, o comprimento e gastou 30 minutos. Após isso abriu as pernas e quase infartaram.

01

[VÍTIMA 2]

[Roberto Marcílio Diniz ]
O envangélico

Trecho: “Que tipo de homem é esse, sem testosterona, um homem que abre as pernas, não é um homem. Quis o socar e já matá-lo. Ele era gelatina nas expressões faciais, no aperto de mãos, no sorriso, na postura. O que castrou esse homem, pensei.  Trecho: Festa de um dos sobrinhos. Churrasco. Roberto tentava conversar com os parentes. Interagir com as crianças, contudo se sentia tão deslocado. Toda aquela cerveja, vodca, muitos palavrões. Os homens sempre com piadinhas sexuais sujas sobre as mulheres. Se gabavam dos carros novos, trapaças, furtivas saídas sexuais, luxuosas viagens para a Europa. A promoção no trabalho. O novo terno Armani. Tudo aquilo o enojava. Sua vida era outra, de outro planeta. Criado para ser um estrangeiro na terra, como a bíblia mesmo lhe dizia. Pouco estacionava nas rodas das pessoas espalhadas pelo quintal da casa grande. Logo se lembrava do versículo bíblico: evitar toda roda dos escarnecedores, e debandava. Sozinho na maioria do tempo.

02

[VÍTIMA 3]

[Francisca ]
A garota negra

Trecho: Nascida na periferia de São Paulo. Filha de pais baianos, negros. Devido à seca e à escassez se voltaram ainda jovens para a esperança da cidade grande. Negra como a noite. Corpo robusto. Lábios exuberantes como a onda do mar em tempestades. Cabelo crespo. A mãe doméstica, pai frentista. Religiosos de todos os santos. Na casa antes de sair, à mãe recitava uma oração, aprendida com sua mãe:  Deus é o sol  Deus é a lua   Deus é santa claridade   Por essas santas palavras   Que é verdade eu ordeno   Que vá retro embora  Olhado, quebrante, mufino, inveja, olho gordo, usura, espanto, admiração.  Vai tudo para as ondas do mar salgado   Onde nem canta galinha nem galo   Amém    Trecho: Grávida. Vendeu a criança para estrangeiros. Não porque não poderia amá-la, sustentá-la, pensava. Não suportaria a criança ao seu lado, a chamar qualquer outro homem de pai. Era-lhe insuportável a possibilidade deste chamado. Dessa resolução familiar na vida. Isso a perturbava, demasiadamente. Não queria criar uma criança sem pai, e por outro lado não queria estar ao lado de uma criança a chamar alguém de pai. Optou por ficar sem o bebê.

03

[VÍTIMA 4]

[Gislaine da Silveira]
A parda

Trecho: Tinha dezesseis anos. Penetrou na casa da patroa branca com a mãe. Perdeu os olhos em tantos cômodos. Todos grandes exceto a sala. Pronta para lavar a louça. Viu gente entrar e sair. Fitou o rosto plástico de uma menina branca. Conclui terem similar idade. Lembrou-se de sua Barbie. Presenteada aos oito anos. Nunca a tirou da caixa. Quis até tocar aquela pele tão neve. A jovem eufórica. Passou na USP. Letras. Gislaine, atenta, achou engraçado ouvir isso: Faculdade de Letras, o que seria isso? Perguntou a si mesma. A menina Barbie sentada à mesa da cozinha comia bolo e contava tudo para o irmão. Os dois sentiram os olhos de Gislaine se esfregarem em suas conversas. Retiraram-se.   Trecho: Às 5h30 de pé no ônibus. Impossível erguer a revista no desejo de ler. Os braços presos pela multidão. Respiração-caos. Sentia o corpo não pertencido, tantas mãos lhe tocavam. Tantos cheiros exalavam de cremes. Inúmeros, de duvidosos hidratantes para a pele. Perfumes irritavam o nariz. Olhos em volta, em todo lugar. Um mar não azul, contudo marrom, negro, mestiço, pincelado de branco. As frontes quase todas atribuladas. Faces-sorvete-no-sol escorregadias até o chão. Às vezes sorrisos desapegados se libertavam das bocas. No aperto massivo violento, o café da manhã por pouco não se livrava do estômago esmagado. 

04

[VÍTIMA 5]

[Amanda de Sis de Camargo]
A gorda

Trecho: ...ele verbalizou que queria a ver novamente. Amanda sorriu, teve medo que os dentes caíssem. Que pensamento insano? A mente criava o caos para ela fugir de viver. Aceitou vê-lo novamente. Sorria em forma de sim.  Trecho: Eu aprendi a odiar ser gorda porque vocês odeiam isso, e odeiam isso por que as pessoas à volta de vocês lhes cobram por eu ser gorda — Eu tô cansada, nenhum de vocês deixou de me chamar de gorda. Cada colherada vigiada, eu não tenho paz, pra onde eu olho, elas estão lá, magras, magras e bonitas com seus namorados, com seus pais orgulhosos. Eu não fiz minha festa de quinze anos por que estava gorda, e agora não fiz minha formatura do colegial, por que não queria ver as fotos como gorda. Meus pets só eles me olham como se eu não tivesse um problema, só eles.

05

[VÍTIMA 6]

[Otávio Trindade de Omero]
O garoto gay

Trecho: O eufórico primo o tomou por completo pelos braços. Otávio o abraçou ferozmente. O primo o beijou no rosto, e Otávio perdeu a ação. As mãos perderam as forças e as pernas não sabiam onde estavam. Ao fim do abraço, correu para fora. Para o banheiro. Percebeu a tempo como os meninos diziam: o pau sobe quando uma mina te beija, mas foi um menino que o beijou e apenas no rosto. Naquele dia soube, não havia volta, era gay, era 100%. A sensação e o despertar de suas funções emocionais e físicas diante de um simples abraço e beijo, não deveria ser ignorados.  Trecho: Presenciei uma sociedade gay ainda mais preconceituosa, contra raça, cor, jeitos, clero, educação, bairrismo, localidades, nascimentos, corpos e mentes. Vivemos com todas as doenças héteros: da beleza perfeita, do dinheiro acima de tudo, do status, do egoísmo, do ódio ao diferente e os multiplicamos, os tornamos ainda piores, os melhoramos em o todo seu horror.

06

O que o autor ouviu

O que o autor ouviu de todas as editoras que o rejeitaram

“

Não tenho coragem de lançar esse livro na minha editora.

“

Foca na história do serial killer, esqueça as vítimas.

“

Lembra Ensaio sobre a cegueira e depois me lembra 50 tons de cinza, não tô preparada pra isso.

“

Tenho receio da nossa editora ser rejeitada depois disso.

“

Gostei, é bom, mas não é pra gente.

“

Isso nunca vai ser lançado.

Lista de espera

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Quem somos

Quem somos

A Jaleu? A gente pega aquele clássico que a escola te enfiou goela abaixo e traduz pra língua da rua, do vagão lotado, do busão e da calçada. Sem pompa, pra você finalmente sacar qual é a do Machado de Assis e companhia. De quebra, damos palco pra ficção autoral que o mercado editorial engravatado não tem coragem de bancar: terror que sangra o mundo real e suspense que incomoda de verdade.

Catálogo

O que fazemos

Arrancamos o mofo das estantes. Reescrevemos as obras de domínio público com a urgência de hoje sem tirar a força do original.  E apostamos as fichas em sangue novo: autores independentes que trazem o terror social, o suspense perturbador e o drama que dói exatamente onde tem que doer.

Motivo

Por que estamos aqui

Pra te provar que literatura brasileira não precisa ser um sonífero. A gente tá aqui pra te entregar os clássicos de um jeito visceral, fácil de engolir e que vai te agarrar pelo colarinho. E pra jogar na sua cara novos autores que denunciam os crimes, as lutas e os horrores urbanos que você mesmo pode estar vivendo no seu próprio quintal.

Queremos

  • +clássico com sotaque de rua sem perder a força do original
  • +voz nova que o mercado grande não quis achar
  • +humor ácido com repertório de verdade
  • +gente que nunca terminou um livro se sentindo em casa aqui

Não queremos

  • –cheiro de naftalina escolar, texto mole ou pose de intelectual intocável
  • –texto raso que não sangra, papo furado pra bater cota de página e fofoca literária vazia
  • –gatilho mental barato, isca pra trouxa e fórmula de vendedor de curso
  • –mastigar a ironia e desenhar a piada pra quem tem preguiça de pensar